sábado, 11 de abril de 2009

Uma conversa de nerds...

No início deste ano tive o prazer de desfrutar da companhia de dois amigos, Elton e Ítalo do Geófagos, em um almoço na propriedade do sogro de um deles, na zona rural de Guaraciaba/MG, Zona da Mata de Minas Gerais.


Como não poderia ser diferente fomos andar pela área, ver uns barrancos, geoformas no horizonte, o máximo possível de detalhes da vegetação e da biota de uma maneira geral.

O Ítalo nos chamou a atenção para uma caixa d'água antiga, de uns 30 anos de construída, feita de alvenaria, onde hoje à sua volta é um cultivo de eucalipto.

O Ítalo comenta "já virou solo!" apontando para para algumas evidências.

"Olha o intemperismo físico aqui!" - alguém apontando para um vegetal superior desenvolvendo-se em uma fresta:

O intemperismo físico consiste basicamente na quebra de um corpo maior em vários outros relativamente menores, uma rocha rolando morro abaixo e se desmanchando em vários pedaços menores no chão, por exemplo, ou ainda uma rocha fraturando-se com o auxílio da pressão radicular de um vegetal superior cuja semente germina e a planta inicialmente desenvolvem-se em uma fratura menor que tenha um mínimo de solo ali já formado.


Quanto menor um corpo maior é a superfície específica deste (área/massa, ou área/volume), e são nas superfícies onde as reações químicas do intemperismo químico acontecem, cujo princípio básico é a alteração de um mineral de rocha ou de solo formados sob condições pretéritas em outros minerais que estejam mais equilibrados, ou estáveis, para as novas condições ambientais que se encontram. 



Talvez seja a hidrólise dos minerais a principal reação de intemperismo químico que ocorra na superfície do planeta, esta muito ajudada pelos ácidos orgânicos advindos da biota, seja por meio de exudação radicular de substâncias pelas plantas ainda vivas, ou pela decomposição de um finado ser vivo ou de parte dele.


Abaixo temos fotos de briófitas utilizando o reboco de cimento já bastante alterado como substrato, formando algo como um milimétrico horizonte A na interface cimento-briófitas:

A caixa d'água de alvenaria como um todo sendo o material de origem de um solo, em uma escala bastante reduzida é verdade, mas temos uma verdadeira sucessão ecológica mesmo que em um "nanocosmos" deste, onde formas de vida mais primitivas vão alterando o meio físico e gradualmente proporcionando condições para que formas de vida mais complexas gradualmente se instalem.


Abaixo foto de biofilme de cianobactérias, seres estes muitas vezes fixadores de N atmosférico, o que incorpora N absorvível pelas plantas no sistema, e dadas suas características de sobreviverem em condições muitas vezes adversas para a maioria das demais formas de vida são bastantes empregados em projetos de Recuperação de Áreas Degradadas em países como o Japão:

Térmitas, considerados engenheiros dos ecossistemas por muitos pedólogos, habitando a estrutura, construindo canais e contribuindo para que cada vez mais esta se pareça com um montículo homogêneo de solo:


Redução do ferro III pela atividade microbiana que em condições de saturação de água (anaerobiose) utilizam este elemento como aceptor final de elétrons, e posterior exportação deste metal já em uma forma (a reduzida forma ferro II),  tal como acontece em solos de baixadas das paisagens, como Gleissolos, o que no caso torna os tijolos ainda mais frágeis e decomponíveis:



O fechamento da conversa foram várias dúvidas, uma delas em especial:


 - "Se aqui em Guaraciaba/MG com menos de 30 anos em uma área antropizada esta caixa d’água de alvenaria já está neste grau de alteração, teriam os vestígios de cidades com edificações mais complexas construídas por povos pré-colombianos que habitaram a Amazônia já virado solo?"


Como exemplo, Machu Pichu, a ‘cidade perdida dos incas, está a mais de 2000 m de altitude, com um clima bem mais adverso ao intemperismo que a Amazônia e Guaraciaba/MG, então mesmo considerando que foi praticamente toda construída de rocha maciça, a biota desenvolve-se mais lentamente ali.


 Abaixo uma foto do aspecto de vegetação nativa tomando conta da cidade quando ela em 1911 foi descoberta pela expedição de Hiram Bingham, e mais abaixo foto do aspecto que possui hoje (respectivamente copiadas daqui e daqui): 





6 comentários:

Curimã Hei, Curimã Lambaio! disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Curimã Hei, Curimã Lambaio! disse...

Ainda vou a Machu Pichu!!! Meu sonho!!! Já tô juntando um dinheirinho...Melhor ainda se fosse com você junto: Machu Pichu em 3D!!! Abraços, Lis Brasil!

msg disse...

Muito boa tarde,Marcus

Você não deixa descansar. Como se pode resistir a tais desafíos,ainda que não pensados como tal.Desta vez,com um tema do domínio fundamental,onde se pode estar mais à vontade,embora com riscos.
O que deu,neste seu caso,uma caixa d'água de alvenaria,nada mais,nada menos,no Machu Pichu. As coisas estão todas ligadas por um fio indelével,apontando para uma causa comum. Mas iso já é filosofia. Regressemos à caixa.
Toquemos apenas,ao de leve,que leve também
é o meu conhecimento,nalgumas das suas teclas,só referindo-as.
Hidrólise,ácidos orgânicos,exudação,nanocosmos,
cianobactérias,redução. O que aí vai,do que a
natureza é capaz,sem o homem. Apetece dizer que o homem veio e estragou tudo. A natureza,sozinha,saberia arranjar-se,com tantas capacidades reactivas.
Finalmente,só para acrescentar uma pequenina coisa que não teve espaço para dizer.
Na decomposição da matéria orgânica,restos de microorganismos incluídos,nos exsudados das raízes,alguns dos compostos têm acção complexante(quelatizante,para o gosto de alguns),acção essa a somar a outras,como as que referiu.
Como remate,no que deu um encontro de amigos. Um encontro altamente produtivo,um encanto de encontro.
Saúde e progressos nos seu trabalho,blogues incluídos.

Marcus V. Locatelli disse...

Obrigado Lis e Manuel. É meu sonho conhecer Machu Pichu também, mas ainda não deu para juntar $$$$, então me espera um "bocadinho" Lis!! rs
Tocou em vários pontos interessantes Manuel, a natureza remediando uma alteração antrópica, por isso penso nossa espécie como um outro componente da natureza, matéria orgânica quelatizando metais e semi-metais e proporcionando CTC para a gradual sucessão... Infinitos pontos a serem observados e comentados!!!!
Interfaces arriscadas como bem disse também Manuel, mas criei o blog para isso, e vamos ver no que vai dar!!!!
Abraços

Guilherme disse...

Bacana esse site Locatelli.
Abraço

Ricardo Sena disse...

Blog com informações preciosas e para quem tem um ar investigativo a mais.

Aproveito para convidat a uma visita ao meu blog de fotografia www.ricardosena.com.br ou olhardabahia.blogspot.com , especialmente para o post da da Serra do Brigadeiro.

Saudações ecológicas,