quarta-feira, 8 de abril de 2009

As fertilidades dos solos I

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Existem várias maneiras de se falar sobre a fertilidade do solo, algumas vezes até de forma contrastante, como a fertilidade química do solo vs. a fertilidade física, e a fertilidade natural vs. a fertilidade construída.

Dividi o assunto em três posts, este inicial como uma introdução de conceitos afim de se chegar nos dois próximos.

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As mulheres por muitas ocasiões ao longo da história da humanidade foram como símbolos de fertilidade. Podemos citar a deusa Deméter na mitologia grega e, sua correspondente da mitologia romana, Ceres (a qual empresta o nome ao termo cereal) como exemplos desta associação na antiguidade. Recorrendo à etimologia da palavra fertilidade veremos que esta faz alusão à capacidade de gerar vida. 

Difícil definir, leia-se limitar (relembrando palavras do polêmico escritor irlandês Oscar Wilde...), o que vem a ser um solo fértil. Um solo pode ser fértil para determinadas espécies e concomitantemente não para outras, pois esta característica depende não somente dos constituintes dos solos, bem como das propriedades resultantes das combinações destas, mas também das características intrínsecas dos seres vivos. 

De certa forma o nível crítico (NiCri) de nutrientes em um determinado solo para uma determinada espécie vegetal (geralmente os trabalhos na literatura são para espécies de utilização agrícola) ajuda a dar uma idéia disso. Notem que temos muitas variáveis fixadas, espécie de planta (o que poderia estender-se para clones, e cultivares da espécie), nutriente e determinado solo de determinada localidade. Os NiCri são estimados a partir de ensaios com doses crescentes de nutrientes adicionados ao solo. 

Usualmente o conceito de nível crítico, apesar do que o nome “crítico” possa aparentar, é uma medida do que seria algo tido como bom, ou suficiente, para proporcionar um desenvolvimento satisfatório, em outras palavras, é o teor mínimo de um dado nutriente em um dado solo a partir do qual uma dada planta consegue desenvolver-se satisfatoriamente.

 Insisto em usar satisfatoriamente e não algo como adequadamente porque acho que a segunda condição é quase que utópica, pois mesmo em lavouras que geram produtos com relativos alto valor agregado, com o algodão, é praticamente inviável se adicionar a quantidade de adubo que proporcione a cultura atingir seu potencial agronômico de produção máxima. Então trabalhamos no ótimo econômico, pois em uma atividade agrícola o importante não é exibir produtividades recordes a qualquer custo, mas sim ter lucro, sem esquecer da sustentabilidade. Usualmente, considera-se que a produtividade de máximo econômico fica em torno de 90 % da produtividade potencial agronômica.

 Voltando ao NiCri... Com exemplos acho que fica mais fácil entender, se temos uma planta A, cujo NiCri de P no solo é de 10 mg/dm3 (considerando um extrator em específico, usualmente o Melich 1), e uma planta B com NiCri de P para o mesmo solo de 20 mg/dm3, mas este solo apresentou na análise um teor de 15 mg/dm3 de P, conclui-se que, em termos de nutriente P, este solo é mais fértil para a planta A do que para a planta B. 

Podemos também entender como um solo fértil, um solo em que organismos do sistema tenham condições de completar seus ciclos vitais. 

Entendamos como “organismos do sistema” como algo, por exemplo, desde uma vegetação de capoeira alastrando-se sobre uma pastagem degradada, até uma lavoura de algodão altamente produtiva, que exige muitos recursos prontamente disponíveis, incluindo nutrientes minerais (N, P, K, Ca, Mg, S, Fe, Zn, Cu, Mn, B, Cl, Mo e Ni). 

Tentei com os exemplos acima ilustrar dois extremos, uma formação vegetal com espécies vegetais altamente adaptadas para aproveitarem da melhor maneira os poucos recursos disponíveis no solo, que de modo menos acelerado, porém mais sustentável para a dada condição, vai colonizando a superfície do solo degradado (p. ex., que teve seus recursos nutricionais relativamente exauridos, seja por exploração agrícola intensa ou pela não adoção de práticas conservacionistas do solo, o que acarretou em perdas de solo fértil por erosão) num momento inicial, construindo paulatinamente as condições para que a ciclagem biogeoquímica de nutrientes no solo atinja certo nível que permita sua colonização por espécies vegetais menos “rústicas”, por assim dizer. 

Agora uma lavoura de algodão altamente produtiva, que é mais exigente quanto a disponibilidade de nutrientes no solo do que as espécies que compõem a supracitada capoeira, pois cresce de forma acelerada e com muita “fome” para expressar todo seu potencial genético de alta produtividade. No geral, as variedades agrícolas melhoradas para serem mais produtivas e ou resistentes às doenças, não carregam os genes de melhor extração ou de eficiência em aproveitamento de nutrientes do solo, então elas geralmente produzem às custas de adubações pesadas. 

Uma boa medida de eficiência em utilização dos nutrientes disponíveis no solo por parte das plantas de uma maneira geral, não somente agrícolas, é o coeficiente de utilização biológica (CUB). 

Por exemplo, se uma cultivar de soja possui um CUB de 200 kg de grãos de soja (a 13 % de umidade) para cada kg de P efetivamente absorvido ela é mais eficiente em utilizar o P do que outra cultivar que tem um CUB de 150 kg de grãos de soja produzidos (também fixando os 13 % de umidade) para cada kg de P absorvido.


4 comentários:

Anônimo disse...

Caro Locatelli,
sempre fui fã da curiosa relação feminino-fertilidade-terra (solo). Não sei se vc leu meu primeiro post lá no Geófagos ("O solo é a mãe de todas as coisas"), mas falo um tiquinho dessa tal relação. Ceres era a deusa da agricultura... A vida é gerada nos ventres das mulheres e das terras... acho que "sub-conscientemente" fui estudar fertilidade do solo por achar isso tão lindo.
abraços e parabéns pelo blog!
Flávia.

Cristiano de S. Marchesi disse...

Marcus, realmente bacana o assunto mas, poderia deixar de lado a exagerada prolixidade ao dizer que esta (a fertilidade) é relativa, ao invés de confiar a capacidade de entendimento aos exemplos.
Mas valeu; tá bom sim.

Marcus V. Locatelli disse...

prezado Cristiano, não vejo proxilidade alguma em dizer que o termo fertilidade é muito relativo, inclusive se prestar atenção na sequencia de textos sobre o assunto verá alguns exemplos, ou melhor, se dispor de algum tempo e ver alguns outros posts poderá reconhecer muitos dos aspectos tratados aqui neste post.

Cristiano de S. Marchesi disse...

Então peço-lhe desculpas pelo que escrevi amigo Marcus; o que busquei fazer-lhe entender é que a maioria das pessoas leitoras desse tipo de assunto conseguem abstrair-se suficientemente dando suas proprias situações ao dizer simplesmente que a fertilidade é relativa. Mas acretido que quando as pessoas buscam uma definição sobre tal assunto elas buscam algo mais taxativo; ou seja, uma explicação de fertilidade que é "universal": é para uma planta assim como é para todas! Porém sei que não é o mais acertado sermos generalizadores, mas, o interessante é que nós fomos/somos submetidos a um tipo de educação que nos faz sermos e buscarmos generalizações; isot é: a lógica da coisa. Mas, é de grande proveito as leituras daquilo que você escreve amigão! Felicidade. Forte abraço.